Meu armarinho
Férias, janeiro de 2025. Pensei em fazer um armarinho para guardar minhas coisas em casa. Desde que vim morar com a Ju, algumas coisas minhas ficaram com meu pai ou com meu irmão, pois não havia espaço aqui. Além disso, precisava arrumar um local para as coisas que fui comprando ao longo do tempo: as caixas do notebook, do celular, do homelab, do teclado e do mouse, peças e acessórios para as bicicletas — enfim, itens que adquiri depois de vir morar aqui. Ia me virando com uma portinha do baú do escritório; uma portinha de 88 × 50 × 33 cm (L × A × P) era o que eu tinha.
Enquanto estava de férias, desenhei o móvel — o design foi 99% inspirado em um armário que eu e meu irmão fizemos em 2020 na Andurá. Até hoje tenho imenso orgulho daquela peça. Pensei nos encaixes, nos detalhes, comprei o madeiramento e as ferragens. Não que isso tenha sido rápido. Só na questão das ferragens demorei um bom tempo, porque coloquei algumas exigências na cabeça: os parafusos que prenderiam o corpo aos pés deveriam ser Allen com rosca métrica, com arruelas côncavas para melhor acabamento e presos com porcas de inserção; as dobradiças deveriam ter sistema click, possuir fechamento suave e acabamento sobre os parafusos; os suportes das prateleiras não seriam os uniblocks comuns, mas sim pinos também fixados com porcas de inserção, para poder tirar e colocar quantas vezes fosse necessário sem arrebentar a madeira. E tudo isso — todas as ferragens — deveria ser em aço inox, nada de zamac. Para conseguir comprar tudo isso em inox e as porcas de inserção com rosca métrica, tive que apelar ao AliExpress. Com exceção das dobradiças, tudo foi comprado lá.
Nos primeiros dias de produção, tudo correu conforme o planejado. Fiz todas as marcações na chapa de compensado naval e os cortes na sequência. Com a fresadora de junção Makita PJ7000 fiz os vincos e usei as “bolachas” para unir as arestas da caixa. Colei tudo e já tinha uma parte pronta. Eis que minhas férias terminaram — e aí começou a ladainha.

Durante a semana: universidade; nos finais de semana, alguns eu queria aproveitar com minha esposa, outros eu tinha que ajudar meu irmão na Andurá, e em outros havia compromissos aleatórios. Fiquei assim até que, no início de maio, retomei o projeto. Dessa vez comecei a fazer os pés — não são bem pés, mas uma estrutura que abraça a caixa do armário. Mede, desdobra a madeira, mede, corta, mede, aplaina, mede, faz os encaixes, corrige pequenos erros, cola, faz a furação das cavilhas, coloca‑as nos devidos buracos e corta o excesso. Depois vem a lixa grão 100 em tudo. Por fim, uma das coisas mais legais da marcenaria: usar a tupia para fazer os chanfros nas arestas.

Outro hiato. Trabalho na universidade, viagens, mais trabalhos na Andurá (produção da linha Sara — sofás, cadeiras e mesas). Em novembro, no embalo da linha Sara, voltei ao armário. Dessa vez fiz o fundo, as portas, as prateleiras e as furações na caixa e na estrutura; coloquei as porcas de inserção, testei os pinos das prateleiras e a fixação da caixa à estrutura. Tudo certo.
Na última parada tivemos mais trabalho na universidade, mais viagens (férias em São José do Norte), mais ajudas na Andurá e algumas pedaladas. O retorno para a finalização ocorreu no finalzinho de abril. Foi a hora de furar para instalar as dobradiças, colar as borrachinhas sob os pés, lixar todo o material com lixa grão 180 e envernizar. Esperar secar, lixar e aplicar segunda demão — dessa vez com a ajuda da Ju. O acabamento do verniz Majestic PU Acetinado da PPG ficou lindo demais.

Na manhã de sábado, 9 de maio, pedi à Ju que me ajudasse no transporte do móvel da Andurá até nossa casa. Foi um esforço, mas deu certo. Trouxemos tudo desmontado; ao chegar, espalhamos as peças pela sala e comecei a aplicar a cera Artefice Supreme da General Iron Fittings para dar aquele acabamento de primeira. Após a aplicação, veio a montagem: fundos na caixa, caixa na estrutura, pinos na caixa, prateleiras na caixa, dobradiças nas portas e portas na caixa. Pronto — finalizado.

E no final? Fiz o meu melhor com o tempo que tinha e gostei do resultado; achei que ficou bem bonito. O único problema foram todas essas interrupções, que me fizeram perder o ritmo e ocasionaram alguns errinhos. Mas esses errinhos fazem parte da história dele, e está tudo certo. Além disso, essa inconstância me fez perder o tesão pelo processo e o foco — e, perdendo tesão e foco, demorava mais a retomar, uma bola de neve. Mesmo assim gostei: ele está sendo muito útil em casa. Pude trazer minha coleção de livros físicos, meus poucos CDs, DVDs, Blu‑Rays e jogos de PC. Consegui organizar certinho as caixas dos eletrônicos, meu monitor portátil, meu controle da 8BitDo, as coisas das bicicletas e a pasta com meus documentos. Fiquei orgulhoso. Próximo projeto? Um quadro para colocar os cartões das réplicas das pinturas de Alfons Maria Mucha que a Ju trouxe de Praga como presentes para mim. As obras são lindas por si só e merecem um quadrinho à altura.

I’m watching as the stage goes black •
How long until we all go back •
To being nothing at all •
Nothing but a spark in someone’s eye •
Am I giving all that I can give •
Am I earning the right to live •
By looking in a mirror •
There’s nothing more sincere than selfish art •
Noah Gundersen - Selfish Art